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Aislane Pinto.


19/02/2009

VISÃO DE LOPES DE SÁ SOBRE AS NOVAS NORMAS CONTÁBEIS

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Um dos fortes críticos a nova Lei das S/A e as normas internacionais certamente é Antonio Lopes de Sá. Confira abaixo uma entrevista dada por ele a Rudolfo Rebêlo, publicada do Diário de Noticias de 3 de Outubro de 2008, pagina 16, que trata justamente destes pontos.
* VISÃO GERAL
António Lopes de Sá: Não basta regulamentar os mercados financeiros. Grandes bancos e consultoras alteraram normas contabilísticas, produziram regulamentos que os países adoptaram como leis. Pequenos investidores são prejudicados.
* HÁ UM PARALELO PRÓXIMO ENTRE OS “ACTIVOS LIXO” DA BANCA AMERICANA E EUROPEIA E A CONTABILIDADE CRIATIVA? A BANCA, OS REGULADORES, OS GOVERNOS FORAM IRRESPONSÁVEIS?
Foram irresponsáveis na valorização dos balanços. E isto sucedeu porque as normas de contabilidade permitiram. A principal falha está aí.
* QUAIS OS PRINCIPAIS INTERESSADOS NA FALHA E DETURPAÇÃO LEGAL DA CONTABILIDADE?
São os grandes investidores. Os que fazem as manobras contabilísticas, os que produzem falsos prejuízos para que se consiga vender as acções. Com a mesma norma produz-se falsos lucros e neste jogo interessa que as normas sejam maleáveis…
* BANCOS E ESPECULADORES ESTÃO NA PRIMEIRA LINHA…
Sim, as classes dominantes. Investiram muito dinheiro e hoje as próprias nações transformaram essas normas em lei por acção de lobbies e das transnacionais.
* COMO SE CHEGOU A ESTA PRODUÇÃO DE NORMAS CONTABILÍSTICAS?
O sistema de produzir normas é hermético. Só os lobbies têm acesso. Quem orquestra isto? Está tudo nas mãos das multinacionais de auditoria. Porquê? Porque representam as multinacionais económicas, grandes bancos que estão interessados na manipulação. Os interesses dominam a produção das normas. Warren Buffett – que investiu recentemente na Goldmam Sach – declarou, ostensivamente, que não se deve confiar num balanço baseado nessas normas. Ele escreveu um artigo a propósito: “Alice no país das maravilhas da contabilidade”.
* O QUE, TARDE OU CEDO, ACABA POR PREJUDICAR O ELO MAIS FRACO DO MERCADO, MENOS AVISADO, OS PEQUENOS INVESTIDORES…
Que só vê a conta de resultados, se dá lucro ou prejuízo. O investidor mais pesado quer saber mais informação.
* AS MAIS RECENTES NORMAS DE CONTABILIDADE PARA A BANCA ENFERMAM DO DESVIO DOUTRINÁRIO, CIENTÍFICO?
Sim, é verdade. Dou apenas um exemplo: o banco central do Brasil acabou de transformar um prejuízo de mais de 40 mil milhões de reais em lucro de três mil milhões de reais. Como isto aconteceu? Transferiram essa perda real para o erário público. O contribuinte vai pagar, mas o balanço do banco central vai ficar bonitinho. Há muitos mais exemplos pelo mundo fora.
* SEGUINDO AS NORMAS ACTUAIS, NINGUÉM PODE SER DECLARADO CULPADO, TERÁ MESMO DE SER RECOMPENSADO…
Não existem culpados, porque seguiram as normas. E estas eram legais. O subjectivismo na contabilidade conduz ao critério de conveniência. E esse critério, que nada tem a ver com a ciência, tem de acabar…
* NAS NOVAS NORMAS DE CONTABILIDADE, QUAIS OS PONTOS QUE MAIS CRITICA?
A parte da avaliação, sem dúvida. São valores falsos, além de outros conceitos que foram deturpados. Por exemplo, no arrendamento mercantil (leasing), as empresas colocam os valores no imobilizado. Isto não é imobilizado. Se amanhã tiver de liquidar a empresa o tratamento é diferente…
* HÁ DEFORMAÇÕES DE CONCEITOS AO NÍVEL DOS BALANÇOS, O QUE ACABA POR FALSEAR OS RESULTADOS FINAIS…
Outra deformação é o que se passa no valor imaterial da empresa (trespasse). Esse valor imaterial acabou por corromper tudo aquilo que a doutrina trata… Há uma clara subversão conceptual. Coisa pior ainda é a tradução das normas de inglês para português…arranjaram coisas incríveis, que não correspondem à realidade.
* POR EXEMPLO?
No conciliativo (património para uso), a doutrina científica – que se baseia na realidade – diferencia o activo de um recurso. A confusão feita à volta disto é enorme. Na verdade, um activo não é um recurso. Derivou do recurso e este é diferente: é o que tenho para gerar coisas. A palavra resource pode ter uma conotação diferente. A inversão de conceitos é muito grave e, repito, está na origem de leituras erradas dos mercados, balanços e opções estratégicas.
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Fonte: Diário de Notícias
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“Eu às vezes fico pensando em como seria se os brasileiros falassem. Se protestassem contra o que lhes fazem, se fizessem discursos indignados em todas as filas de matadouro, se cobrassem com veemência uma participação em tudo o que produzem para enriquecer os outros, reagissem a todas as mentiras que lhes dizem, reclamassem tudo que lhes foi negado e sonegado e se negassem a continuar sendo devorados, rotineiramente, em silêncio."


Do livro: O Mundo Bárbaro - Luis Fernando Veríssimo.

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